I Semana Clóvis Moura debate pensamento marxista e antirracismo na Bahia

Integrando a programação do 16º Mês das Consciências Negras, o encontro acontece de 4 a 6 de novembro, na Univasf, em Juazeiro (BA), com pesquisadores, educadores e movimentos sociais. A Fundação Maurício Grabois participa da realização, que inclui debates sobre relações raciais e políticas públicas
POR: Leandro Melito
A Fundação Maurício Grabois participa da realização da I Semana Clóvis Moura, que acontece de 4 a 6 de novembro na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), na cidade de Juazeiro (BA).
O evento acadêmico e cultural em homenagem ao intelectual negro integra as atividades da 16ª edição do Mês das Consciências Negras e inclui oficinas focadas em letramento racial, gestão escolar e dinâmicas de branquitude, mesas-redondas sobre cotas, políticas públicas, antirracismo e pan-africanismo, além da exibição de um documentário sobre Clóvis Moura. A conferência de abertura será ministrada por Olívia Santana (PCdoB-BA), deputada estadual eleita deputada federal para a próxima legislatura. A agenda também contempla lançamentos literários e diversas apresentações artísticas e culturais, como o show de encerramento da cantora Mariana Silva.
As inscrições são gratuitas e estão abertas até 4 de novembro. Os interessados podem se inscrever pela plataforma Even3.
“Reunimos a proposição e a provocação da Fundação Maurício Grabois no sentido de aprofundar e alargar o conhecimento sobre a obra e o impacto de Clóvis Moura do ponto de vista das ciências humanas, da história, da política e da economia, um autor multifacetado que influenciou pesquisadores de diversas áreas e gerações, com o objetivo de realizar edições futuras para dar seguimento ao conhecimento, à apropriação e à problematização de sua obra”, destaca Nilton de Almeida Araújo, superintendente de Políticas Afirmativas, Antirracismo e Diversidade da Univasf e um dos organizadores do evento.
“A homenagem a Clóvis Moura se deve ao fato de ele ter sido nosso camarada e um intelectual que pensou a questão do antirracismo no Brasil sob a ótica marxista, destacando-se entre as décadas de 1960 e 1970 ao lado de outros pensadores pelo mundo. Este é um evento de grande relevância que estamos lançando em sua primeira edição, com a perspectiva de se tornar anual e itinerante”, destaca Ricardo Moreno, professor titular e adjunto na Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e integrante da União de Negros e Negras pela Igualdade (Unegro).
A cidade de Juazeiro, no interior da Bahia, foi sugerida pela Unegro para sediar o evento por ter sido o local onde Clóvis Moura viveu parte importante de sua vida e onde teria iniciado sua militância comunista — razão pela qual sugerimos o município para sediar o encontro.
Ele destaca que na região do Vale do São Francisco existe uma interlocução de organizações como a Frente Negra do Velho Chico, Pérola Negra, Unegro e Fundação Maurício Grabois, com artistas, capoeiristas, educadores e sindicalistas, “diálogo que acontece há décadas por meio dos movimentos sociais negros em atividade na região, tomando por referência terreiros com mais de 60 anos de existência e quilombos com mais de 100 ou até quase 200 anos”.
A proposta de realização da I Semana Clóvis Moura surgiu nesse contexto da articulação entre essas diversas organizações ligadas ao movimento negro e à luta antirracista. “No ano passado, estabelecemos uma primeira parceria mais efetiva e sistemática com a vinda de Dennis de Oliveira [professor titular em Jornalismo e Interfaces Sociais na ECA-USP] e de outros grandes intelectuais. Naquele primeiro momento, realizamos debates, reflexões e proposições que resultaram na realização da primeira Semana Clóvis Moura na Univasf, onde promovemos há 16 anos o Mês das Consciências Negras, com ciclos de atividades mensais que ocorrem desde fevereiro”.
Atualidade de Clóvis Moura e a luta antirracista
Nilton Araújo considera que Clóvis Moura construiu uma plataforma teórica fundamental e pioneira no século XX, antecipando proposições como a centralidade da história negra, a participação ativa da população negra e dos povos africanos na formação do Brasil, além da denúncia, dissecação e desmoralização do racismo.
“Se hoje temos a Lei 10.639, a Lei 11.645, as cotas raciais — ainda que Clóvis tenha feito uma problematização bastante interessante à época das primeiras iniciativas — e o Estatuto da Igualdade Racial — que é um dos pontos do nosso contexto regional a ser debatido na semana de 4 a 6 de novembro —, devemos isso a toda uma gama de militantes, intelectuais e escritores. Isso passa por Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Abdias Nascimento e por muitos outros gênios, mas passa também, sem dúvida, por Clóvis Moura. Para compreendermos a dimensão prolífica das produções que hoje chegam às universidades, precisamos conhecer o trabalho e as obras de Clóvis Moura”, destaca.
Tomando seu pensamento como ponto de partida, a I Semana Clóvis Moura homenageia o intelectual negro com a intenção de retomar criticamente suas proposições, de forma a avançar em elaborações teóricas sobre o antirracismo. “Clóvis Moura não desejaria que apenas repetíssemos o que ele colocou, mas que também analisássemos, problematizássemos, examinássemos e avançássemos. O impacto de sua obra é fundamental para ser conhecido, principalmente por estudantes e professores da rede básica, razão pela qual dedicamos uma atenção especial à divulgação e busca de público junto a professores, gestores, diretores e alunos”, aponta Nilton Araújo.
“O evento leva o nome de Semana Clóvis Moura, mas não é exatamente um evento voltado apenas ao seu pensamento. O objetivo é estimular a construção de um segmento que debata o antirracismo pelo viés do materialismo histórico-dialético, pois nem todo antirracismo é igual, e buscamos delimitar o campo que discute essa pauta a partir da perspectiva marxista. Assim, embora ele seja o homenageado, as temáticas do evento não se restringem ao que ele escreveu, mas abordam essa linha de pensamento mais ampla”, explica Ricardo Moreno, que participará da mesa de debate intitulada ‘Dialética e Antirracismo’ — mesmo título do livro do qual é organizador e autor de dois artigos, que será lançado na sexta-feira durante a programação. A mesa ocorre na quinta-feira (5), com participação de Jacqueline Botelho, da Universidade Federal Fluminense (UFF).
“O objetivo dessa mesa sintetiza o próprio espírito da proposta do evento: apresentar como tratamos o antirracismo a partir da visão dialética e do materialismo histórico-dialético”, aponta.
Sobre Clóvis Moura
Nascido em Amarante (PI) em 10 de junho de 1925, o intelectual Clóvis Steiger de Assis Moura foi um comunista negro, historiador, sociólogo, jornalista e poeta. Atuou como intelectual orgânico fora dos quadros acadêmicos tradicionais, desenvolvendo uma obra de inspiração marxista sobre as relações raciais e a formação social do Brasil.
Seus estudos foram pioneiros ao caracterizar o racismo como elemento fundante do Estado brasileiro e ao resgatar o protagonismo da população negra na construção da identidade nacional. Sua sólida trajetória é marcada pela publicação de 26 livros, além de uma extensa série de artigos em periódicos. Sua principal obra é Rebeliões da Senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas (1959) — fruto de minuciosa pesquisa em documentos do período colonial e imperial. O livro transformou os rumos do debate historiográfico ao consagrar o quilombo como uma unidade política central de combate e resistência ao regime escravagista e ganhou uma edição especial da Fundação Maurício Grabois e Editora Anita Garibaldi em 2025, ano do centenário do autor.
Serviço
Evento: I Semana Clóvis MouraData: 4 a 6 de novembroLocal: Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) – Campus Juazeiro (BA)Realização: Unegro, Fundação Maurício Grabois e Univasf (integrando a programação do 16º Mês das Consciências Negras)Público-alvo: Estudantes e professores da rede básica, pesquisadores, militantes dos movimentos sociais e público em geralInscrições: Gratuitas até 4 de novembro, pela plataforma Even3.
Programação completa
Quarta-feira (04/11)
9h e 13h: Credenciamento
18h30: Atividade Artístico-Cultural – Banda Afro percussiva Encrespa
19h: Mesa Institucional de Abertura
20h: Conferência de Abertura com a deputada federal Olívia Santana (PCdoB-BA)
Quinta-feira (05/11)9h30:
Oficina – Identidade racial, pertencimento e enfrentamento ao racismo
14h: Oficina – Infâncias negras, indígenas e ciganas
14h30: Mesa 1 – Cotas raciais e os avanços da população negra na sociedade brasileira
Palestrantes: Edson França (Unegro), Karine Damasceno (Univasf) e Paula Galrão (Univasf)
16h: Clóvis Moura – Vida e Obra de um Intelectual Negro Marxista
Participação: Andrea Cristiana Santos (Uneb) e Denis Oliveira (USP)
16h30: Mesa 2 – Educação e Políticas Públicas para Equidade nas relações étnico-raciais
Palestrantes: Queila Patrícia (Superintendente de Políticas Afirmativas de Juazeiro), Nilton de Almeida (Univasf) e Maéve Melo (Secretária de Educação de Juazeiro)
19h: Mesa 3 – Dialética e Antirracismo
Palestrantes: Ricardo Moreno (Uneb) e Jacqueline Botelho (UFF)
20h30: Atividade Artístico-Cultural
Sexta-feira (06/11)
9h30: Oficina – Gestão Escolar, protocolo de enfrentamento ao racismo
9h30: Oficina – O silêncio no currículo e a branquitude como norma
14h30: Mesa 4 – Antirracismo no projeto nacional de desenvolvimento
Palestrantes: Altair Freitas (FMG), Waldenir (Fecap) e Fábio Nogueira (Uneb)
16h30: Mesa 5 – A atualidade do Pan-Africanismo e as lutas atuais do Continente Africano
Palestrantes: Richard Santos (UFSB), Ivaldo Marciano (Uneb) e João Sicato Kandjo (ISCED Huambo)
18h / Noite – Lançamento de Livros, com destaque para a obra Dialética e Antirracismo, organizada por Ricardo Moreno
Encerramento: Atividade Artístico-Cultural e Apresentação Musical com Tio Zé Bá




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